

Dependência química entre os profissionais
Era para ser mais um parto normal e corriqueiro. A paciente já estava sedada, mas ansiosa porque aquele seria seu primeiro filho. Quanta diferença do profissional que a atenderia. O Dr. A. D. S. S. já fizera inúmeros partos. Só naquela manhã era o quinto, como era quinta também a ingestão de uísque do dia. Ao 52 anos, obstetra escolado, conhecido por Dr. Jack Daniels, trabalhava num grande hospital de São Paulo e já levara inúmeras advertências por aparecer alcoolizado no centro cirúrgico. Mas seus procedimentos eram tão precisos, tão incrivelmente corretos que não havia como não dizer que era, sim, um alcoolista, mas excelente profissional. Antes da cirurgia, mais uma cesárea, o Dr. A. D. S. S. achou que não haveria mal algum se emborcasse mais uma dose de uma garrafa estrategicamente posicionada na sala de descanso dos médicos. Mas havia. Ele vinha de plantão. Dormira, mas assim que acordara começou a beber. Durante o procedimento uma ruptura numa artéria quase levara a paciente a uma hemorragia. A vista turvada o impedira de cauterizar corretamente a artéria. A paciente, em pânico, via que o médico tinha dificuldades em parar o sangramento. Finalmente ele conseguiu salvar mãe e filho. Saiu do hospital chocado e, responsavelmente, internou-se de imediato numa clínica para dependentes químicos. Tudo isso leva à questão sobre se está se dando a devida atenção à dependência química entre os profissionais!
O fato é tão incontestável, a dependência química entre os médicos, que já existe uma comissão especialmente formada pelo Conselho Federal de Medicina para debater e achar soluções para o problema. O que aconteceu com o Dr. A.D.S.S. pode não ser a regra, mas está longe de ser a exceção. Médicos, por possuírem acesso fácil, inclusive a drogas mais seletivas como morfina, são um alvo na mira das drogas. Submetidos a uma carga excessiva de estresse (como todos os demais profissionais presentes nessa reportagem), os médicos estão cada vez mais procurando nas drogas a saída para os seus conflitos.
Certo médico carioca admite que seus colegas façam uso de drogas, mas acha inadmissível que isso se dê no trabalho. "É quase suicídio", alerta. Não usuário de qualquer droga, o médico não condena quem usa. "Não há como condenar, se o sujeito pega plantões seguidos e ganha uma mixaria".
Será que a insatisfação com a profissão está ligada à dependência química entre os médicos? Pesquisa feita pela Fiocruz em conjunto com o Conselho Federal de Medicina, que resultou no livro "Perfil dos Médicos no Brasil", demonstrou que a renda média mensal do médico brasileiro anda pela casa dos R$ 1.300,00. O Estado de São Paulo paga pouco melhor: R$ 3.500,00. Essa má remuneração pode ser um dos aspectos, não o fator em si. Estressado, mal remunerado, o médico se droga e prescreve mal, atende mal e faz maus procedimentos. "Eu fui usuário de heroína e já cheguei a pensar em abandonar a profissão", confessa o Dr. M., cirurgião respeitado de uma grande capital brasileira. No seu caso, ele conseguiu largar a dependência depois que a admitiu e se internou num centro de recuperação. Mas quantos médicos brasileiros têm essa disposição?
A lei se droga
A dependência química também alcançou os braços da lei, justamente o último recurso dos que lutam contra ela. Advogados, promotores e juízes não escaparam ao seu abraço. O Dr. Edson (nome fictício), advogado de São Paulo, admite seu vício em maconha. "Ela não me prejudica em nada no meu cotidiano", afirma. "Pelo contrário, me relaxa como um cigarro comum faria", complementa. Ele fuma a marijuana desde os tempos de faculdade e não abandonou o vício mesmo depois de formado. Voltado para a área criminal é comum deparar-se com delitos cometidos sob o signo da droga. Mas pondera que nunca deixou se influenciar. "Uma coisa é o Edson, cidadão que tem todo o direito de fumar seu baseado e não fazer mal a ninguém; outra coisa é o Dr. Edson que tem que defender uma pessoa que cometeu um delito sob o delírio da droga seja ela qual for".
Opinião divergente possui o Dr. Arnaldo (nome fictício), advogado trabalhista de São Paulo. Ele é alcoolista, freqüentador de Alcoólicos Anônimos e discorda da tese de que uma coisa é a pessoa, outra é o profissional. "O segundo advém do primeiro e se a pessoa for viciada, obviamente seu senso crítico está afetado", sentencia. Ele fala de cadeira. Como advogado trabalhista cansou de ir a audiências alcoolizado. E passou alguns vexames por isso. "Simplesmente não consegui ganhar uma causa, ganha por si só, simplesmente porque não consegui ser suficientemente convincente", lamenta. "Estava bêbado", conclui. Não se sabe o percentual de advogados, promotores e juízes que abusam de substâncias ilícitas e álcool. E mesmo que houvesse números, certamente não seriam divulgados. Cifras e estatísticas no Brasil, sobretudo em casos delicados como esses, são pepitas pouco garimpadas.
Mercado estressado
Pepitas de pânico foram parar na batéia dos operadores de câmbio, bolsa de valores, gerentes de megacontas quando o dólar desembestou curva acima, batendo em 41% de aumento no início do ano. Uma olhada no temperamento pré-mercurial da economia brasileira diz porque esses operadores trabalham sob efeito da cocaína, a droga de escolha de 10 entre 10 desses profissionais. "Ela dá mais energia, mais pique", afirma um corretor da bolsa de valores do Rio de Janeiro. Atuando num mercado estressado por natureza, o consumo de drogas entre esses profissionais é notório. Eles não podem perder um segundo, têm de tomar decisões rápida e instantaneamente, gerenciar super-contas. "Tudo isso imprime um ritmo de desgaste muito grande que só é compensado por uma droga como a cocaína, por exemplo", afiança esse mesmo corretor.
Um psicólogo e psiquiatra de renome afirma que em São Paulo, na região da Avenida Paulista, existe o chamado "circuito do pó". "Todo mundo sabe onde tem", reafirma. Não por coincidência, a região abriga, juntamente com o complexo Berrini-Faria Lima, os maiores bancos de investimentos do País. Ser operador de câmbio, bolsa de valores e gerente de ativos consideráveis são profissões de risco no Brasil. Luiz G., operador de ativos financeiros, confirma que usa cocaína. "Só ela para me manter em dia", observa. Luiz trabalha com derivativos, um investimento de altíssimo risco. Só para ter uma idéia foi mexendo com derivativos que um investidor quebrou o Baring´s Bank, da Grã-Bretanha, uma instituição secular. "Eu tenho de estar ligado em quinhentas coisas ao mesmo tempo, se não meu cliente me degola", diz.
Quase uma instituição
Ligados também têm de ficar os profissionais do jornalismo. Entre estes, aliás, beber é quase uma instituição. É claro que as nuanças vão desde o "bebedor profissional" até os que têm asco à coisa. Mas é conhecida a história de um jornalista de um grande jornal de São Paulo que dava duas tecladas na "pretinha" (a velha máquina de escrever) e ia ao banheiro. Somente mais tarde foram descobrir que ele mantinha, sutil e delicadamente, uma garrafa de aguardente para tomadas ocasionais (que aliás, eram constantes). O álcool é a droga de escolha preferida entre os jornalistas, embora "possa rolar uma cocaína durante os plantões de finais de semana", afirma um jornalista que trabalha num grande jornal de São Paulo. E as conseqüências disso quais são: "Reportagens mal apuradas e textos mal produzidos", afirma Eduardo L., editor de uma revista paulistana.
"Eu passei da conta várias vezes", confessa Leya, jornalista do Rio de Janeiro. Segundo ela, quando passou a fazer a coluna social de um jornal carioca, passou a beber mais. "De um pulo eu já era alcoolista", afirma. Leya está se tratando nos Alcoólicos Anônimos e está 60 dias em abstinência, coisa que um jornalista de São Paulo não conseguiu fazer. Diferentemente dos seus pares, seu negócio é maconha. "Maconha, para mim, é cigarro; só não fumo na frente dos outros porque é proibido", testifica. Com álcool, maconha e cocaína rondando as redações de forma tão clara, alguns veículos de comunicação adotaram medidas extremas. Em uma revista de São Paulo, cujo diretor preferiu não se identificar, quem for surpreendido fumando maconha, bebendo ou cheirando cocaína é imediatamente enviado a um psiquiatra e, segundo a avaliação do mesmo, pode até ser internado em instituição específica.
Problema de polícia
Envolvidos diretamente com o problema, o policial militar luta para driblar salário injusto e fama justa, seja qual for a opinião que se tenha da corporação. O fato é que lidando diariamente com o perigo, muitas vezes mal armados e despreparados, ganhando um salário de fome e morando mal e porcamente, um policial militar se deixa seduzir pelo canto fácil da sereia das drogas. Como tem acesso fácil a tudo – cocaína, maconha, crack, heroína – o rol de substâncias nas quais pode ficar viciado é muito grande. Associa-se o álcool e eis uma pessoa muito próxima de se tornar um dependente químico quase instantaneamente assim que veste a farda. "O meu estresse só diminui com álcool", confirma um policial de uma das grandes capitais do País. "Se eu não tomar, logo pela manhã, pelo menos duas pingas, não trabalho", complementa. É esse o tipo de profissional que se quer nas ruas?
"Não, não é esse tipo", afirma o psiquiatra da corporação de uma das polícias militares brasileiras. Ele recebe por mês em seu consultório perto de quatro policiais militares com problemas de álcool e drogas. Conversa com eles, verifica suas necessidades, apoia, mas, segundo ele próprio, não pode fazer muita coisa. "O trabalho do policial militar é estressante por natureza, mas a forma com que ele descarrega esse estresse precisa ser melhor avaliado, porque, por enquanto, ele só está se drogando". O jeito, segundo muitos entendem, é estruturar melhor esse profissional. Muni-lo não só de aparato tecnológico de combate ao crime, mas de aparato social. "Melhorar seu salário e garantir um seguro para a família já seria um avanço", acredita o psiquiatra entrevistado. Enquanto isso não ocorre, o policial tem de resistir para não injetar a cocaína ou fumar a maconha apreendidas.
A metros da droga
Maconha e cocaína não são o "barato" do operariado brasileiro. Nessa área, a campeã absoluta é a cachaça, seguida de perto pela cerveja. O álcool é o grande companheiro do operário brasileiro. Mesmo os que trabalham operando máquinas não se esquivam de ficar turbinados com uma dose (ao menos) de cachaça na hora do almoço. Bares pululam e disputam acirradamente a freguesia. Há bares que disponibilizam garrafas para seções ou departamentos de certas empresas. "Só aqui eu tenho cinco litros de cinco seções diferentes", assegura o Sr. Amaral, dono de um bar-restaurante em Santo Amaro, zona Sul de São Paulo. "Eles chegam aqui e já vão direto na garrafa", garante. A hora do almoço, entretanto, não é a única hora em que o operário brasileiro se alcooliza. Com certa prodigalidade, é comum que o operário beba pela manhã, antes mesmo de ir para o trabalho.
O que fazer para tirar desse mar de álcool essa população que precisa se especializar cada vez mais diante de uma economia globalizada? A Volkswagen do Brasil possui um programa que funciona nos moldes do AA, segundo o Dr. Murilo Alves Moreira, médico do trabalho, ortopedista, traumatologista e gerente de serviços da companhia. "Muitas vezes, a esposa do operário é que pede nossa interferência", garante o médico. Não é o melhor dos mundos, mas é melhor do que nada. Com a globalização da economia brasileira, as empresas buscam tirar o máximo do mínimo para ganhar a chamada escala, ou seja, produtividade. Os velhos cortes de pessoal voltam à tona e só fica aquele que está imbuído do propósito de melhorar (quando fica). O operário brasileiro precisa se municiar de conhecimentos que assegurem seu emprego. E beber não é o melhor deles.
José Antonio Mariano
Nota da redação - Pela delicadeza do tema, nomes fictícios e siglas, além de pessoas que não quiseram se identificar, tiveram de ser contemplados em nome da proteção das fontes, direito assegurado pela lei da imprensa.


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