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Revista Editorial: Contra as drogas,
a eterna vigilância

Aconteceu comigo. E posso dizer isso de cara limpa não só porque o fato, numa visão retrospectiva, me dá hoje subsídios para orientar pais, como porque espelha muito bem o tipo de visão que eu pessoalmente tinha da ação das drogas no seio familiar. Eu me estendo um pouco nesta questão, porque ela tem relação com a cruzada que a Abrafam - Associação Brasileira de Apoio às Famílias de Drogadependentes espraia pelo país, visando a prevenção contra as drogas.

Desconfiava que meu filho usava drogas. Revelo isso sem peias porque quem me conhece sabe pelo que meu filho, minha família e eu passamos por causa disso. Fiquei sabendo que a roda que ele frequentava e que usava drogas incluía um pessoal que morava no mesmo bairro. Depois de tentar mascarar o problema (e até mesmo de negá-lo, hoje reconheço) resolvi: tinha que pôr um fim a isso e reuni o grupinho no salão de festas do condomínio onde morava para uma, digamos, conversa, um bate-papo, algum esclarecimento.

Sem pesar a mão procurei falar para aquele pessoal sobre a "fria" em que estavam entrando. Sem didatismo, sem conselhos, sem julgamentos, sem posar de dono da verdade, tentei mostrar o quanto as drogas trariam de devaneios, de divagações, de desastres e de derrotas para aqueles garotos. E olhava meu filho, torcendo para que ele entendesse. Soube depois que assim que me virei e saí da sala eles acenderam um baseado, rindo da minha caretice e até ingenuidade em querer falar sobre algo que eles mais do que conheciam, fumavam.

Bem, à e´poca meu filho não entendeu e a história de sua corajosa recuperação é uma outra história. Mas isso serve para que eu possa hoje, nas minhas palestras e apresentações, dizer aos pais: fiquem atentos! E sejam enfáticos! Se você desconfia que seu filho é usuário de drogas - e quando digo drogas falo inclusive do álcool - precipite a crise, ou seja, mostre a ele que você sabe e que, daquele dia em diante, a droga, que antes fazia parte apenas do mundo dele, agora é parte integrante de uma família que não sossegará enquanto não recuperá-lo.

Não é fácil encarar que a droga entrou em minha família. Não consegui fugir a culpas. Revirei o passado para ver onde tinha errado, do que não havia participado, para onde estava olhando enquanto a droga abria espaço na minha família. Hoje posso dizer que isso não adianta. O que adianta é observar o comportamento do seu filho e diante da menor desconfiança começar a agir. Subestimar, esmaecer, mascarar ou marginalizar o problema é uma atitude que só alarga a boca do poço que seu filho está descendo. Estenda-lhe a mão que resgata antes que outros lhe ofereçam a mão que afunda.

Carlos Roberto Rodrigues
Presidente da ABRAFAM




Índice da edição Ano 1 - Nº 3 - 1998 de
"Droga e Família"


1.- Especial: Maconha: naturalmente devastadora;
2.- Artigo - Drogas: Uma reflexão familiar;
3.- Auxílio - Doze anos recuperando vidas;
4.- Controle - Carlini continua de olho nas drogas;
5.- Entrevista - Com a palavra, o chefe da boca de fumo;
6.- Sobrevivi - Vitória sobre as drogas;
7.- Pesquisa - Permanência do álcool no sangue;
8.- Opinião - Meu filho é drogadependente. E agora?;
Além de outras seções contendo informações sobre livros, sobre casas e clínicas de recuperação, cartas dos leitores etc.

A revista "Droga e Família" tem periodicidade bimestral e você pode adquirir o seu exemplar escrevendo para o endereço:

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